Do Multicanal aos Ecossistemas de Sinais: Como a Forma como Entendemos o Varejo Está Mudando

Introdução: Por Que Pensar em “Canais” Já Não É Suficiente

Durante anos, o varejo organizou sua estratégia em torno dos canais. Os esforços eram divididos de acordo com o local onde a transação ocorria. Lojas físicas, e-commerce, marketplaces, redes sociais ou atendimento ao cliente eram tratados como espaços distintos, cada um com seus próprios objetivos, métricas e gestores. Essa abordagem permitiu gerenciar a complexidade inicial da digitalização e facilitou o crescimento em múltiplas frentes.

No entanto, o contexto atual mudou. O comportamento do consumidor está mais fragmentado, menos previsível e muito mais dinâmico. Na verdade, 73% dos compradores interagem com múltiplos canais e integram uma média de 6 pontos de contato antes de concluir uma transação.

As decisões de compra são construídas a partir de microinterações que acontecem em diferentes momentos e lugares. Onde começa e termina cada canal? Essa pergunta está começando a ser insuficiente para explicar o que realmente está acontecendo e, acima de tudo, para tomar decisões com rapidez e consistência.

Os limites da abordagem “multicanal” clássica

O modelo multicanal foi projetado para que as empresas pudessem vender em lojas físicas, em seus sites e, mais tarde, nas redes sociais. Embora tenha representado um progresso, esse sistema carrega um problema estrutural: a fragmentação. Cada canal costuma operar com seus próprios orçamentos, suas próprias metas de vendas e, o que é mais grave, seus próprios bancos de dados.

: Conjunto de ícones em estilo de lâmpada representando a abordagem multicanal clássica em silos: loja física, web/desktop, carrinho, compartilhamento social e suporte.

Essa separação cria uma visão incompleta do cliente. De acordo com a Plivo (2025), apenas 13% das empresas conseguem transferir o contexto do cliente entre os canais, o que significa que 56% dos consumidores precisam repetir informações ao trocar de ponto de contato. Se uma pessoa pesquisa um produto na web, mas o compra na loja física, a equipe digital interpreta que a campanha online falhou, enquanto a equipe da loja reivindica o sucesso sem saber a origem daquela visita.

Essa falta de comunicação entre os departamentos impede que os recursos sejam otimizados e faz com que as decisões sejam tomadas com base em uma realidade parcial. A abordagem baseada em canais mede onde o dinheiro vai parar, mas ignora a jornada anterior e o “porquê” por trás do comportamento do consumidor.

Dos canais aos ecossistemas de sinais

A alternativa emergente consiste em deixar de pensar em canais separados e começar a construir um ecossistema onde cada interação do usuário (um produto salvo nos favoritos, o tempo gasto em frente a uma vitrine ou uma consulta ao atendimento ao cliente) gera um sinal. Esses sinais são capturados, interpretados e compartilhados em tempo real em todas as áreas do negócio. Não se trata apenas de tecnologia, embora a infraestrutura de dados seja essencial. Trata-se de uma mudança de mentalidade: passar da gestão de pontos de venda para a orquestração de fluxos de informação que melhoram continuamente toda a operação.

Nesse modelo, um cliente que compara produtos na web durante vários dias não gera simplesmente tráfego. Ele gera sinais de intenção que podem informar o sistema de recomendação, ajustar o estoque na loja mais próxima ou acionar uma comunicação personalizada. Cada ação conta uma história que alimenta as decisões do restante da organização.

O que é um “Ecossistema de Sinais”?

Um ecossistema de sinais é definido como um modelo de gestão onde cada ponto de contato é tratado como uma fonte de dados valiosa que alimenta todo o sistema corporativo. Sob essa perspectiva, uma devolução na loja, um clique em um e-mail ou um comentário em uma rede social deixam de ser eventos isolados e passam a fazer parte de um fluxo de informações comum.

Diagrama de um ecossistema de sinais com um cérebro ao centro conectado a ícones de loja, laptop, carrinho, compartilhamento e atendimento ao cliente.

A diferença fundamental em relação ao modelo tradicional reside na circulação da informação. No esquema de canais, os dados são armazenados em compartimentos estanques ou silos. O departamento de logística sabe o que está sendo devolvido, o de marketing sabe quem está clicando e o de vendas sabe o que está sendo vendido, mas raramente cruzam essas informações de forma ágil.

Em um ecossistema de sinais, a informação flui perfeitamente para melhorar três áreas críticas simultaneamente:

  1. A cadeia de suprimentos: Sinais de demanda na web podem acionar pedidos de reposição antes que as lojas físicas fiquem sem estoque.
  2. Marketing: Dados de comportamento em tempo real permitem a entrega de mensagens personalizadas que correspondem ao interesse atual do usuário.
  3. A experiência na loja: A equipe de vendas tem acesso a informações sobre as preferências do cliente, permitindo oferecer conselhos muito mais precisos e úteis.

Tudo funciona como um organismo integrado que aprende e se adapta constantemente.

Os 5 Tipos de Sinais Que Importam

Nem todos os sinais têm o mesmo peso ou o mesmo propósito. Para tornar o ecossistema acionável, é útil agrupá-los em categorias claras que auxiliem na interpretação e priorização.

Sinais de Intenção

Esses sinais revelam o que o cliente está procurando e o quão perto ele está de tomar uma decisão. No mundo digital, são fáceis de rastrear por meio de pesquisas no site, produtos adicionados a listas de desejos ou tempo gasto lendo as especificações de um item específico.

Cena dividida de compras na loja e online com favoritos; sinais de intenção divididos entre físico e digital.

No ambiente físico, a intenção se manifesta através do percurso pelos corredores ou do uso dos provadores. Se um cliente entra na loja com seu celular e escaneia um código QR para ver se há outros tamanhos disponíveis, ele está emitindo um sinal claro de intenção. Capturar esses dados permite que a empresa saiba quais produtos estão gerando interesse real, mesmo que a venda não seja fechada naquele momento preciso.

Os sinais de intenção são especialmente valiosos porque permitem que as empresas se antecipem. Eles também ajudam a entender tendências emergentes. Quando as buscas por um termo específico disparam, o sistema pode alertar as equipes de compras e marketing muito antes que essa mudança se reflita nas vendas. Essa vantagem de tempo permite uma reação ágil às mudanças do mercado.

Sinais de Valor e Sensibilidade

Esses sinais nos ajudam a entender a relação do cliente com o preço e a exclusividade. Observar como um segmento de usuários reage a um desconto específico ou se preferem comprar produtos da nova coleção sem esperar pelas liquidações fornece dados sobre sua sensibilidade ao preço.

Pessoa comprando no celular com um desconto e “adicionado ao carrinho”, exemplo de sinais de valor e sensibilidade ao preço.

Se um grupo de clientes regulares só compra quando há uma promoção ativa, o ecossistema recebe um sinal sobre a necessidade de ajustar a estratégia de margem para esse perfil. Por outro lado, se os sinais indicam que serviços adicionais, como entrega rápida ou embalagem premium, são valorizados, a empresa pode aprimorar esses aspectos para aumentar o valor médio da transação.

Sinais de Fricção e Confiança

Esses sinais identificam onde o cliente encontra obstáculos ou dúvidas. Carrinhos abandonados na mesma etapa do checkout, perguntas frequentes sobre políticas de devolução, chamadas para o atendimento ao cliente após iniciar uma compra, produtos repetidamente adicionados e removidos do carrinho. Cada um desses comportamentos indica um ponto de fricção que está custando vendas.

Pessoa com laptop e celular recebendo alertas de “ERRO”, ilustrando falhas no ecossistema de sinais durante uma interação digital.

Eles também capturam sinais positivos de confiança: clientes que concluem compras sem verificar avaliações, que escolhem opções de pagamento rápido ou que ativam notificações de produtos. Entender o que gera confiança e o que a corrói permite o design de experiências que removem barreiras e reforçam os elementos que funcionam.

Sinais Operacionais

Diferente dos anteriores, os sinais operacionais vêm dos processos internos da empresa, mas impactam diretamente o cliente. Produtos que frequentemente ficam fora de estoque, tempos de reposição prolongados, devoluções concentradas em itens específicos ou incidentes no processo de entrega. Esses sinais alertam para problemas na cadeia de suprimentos, erros nas descrições dos produtos ou falhas no controle de qualidade.

Armazém com operador e gráfico de inventário; produtos marcados como “fora de estoque”, fundamentais em sinais operacionais.

Sinais operacionais permitem agir antes que os problemas afetem os clientes em larga escala. Se um lote de produtos apresenta uma taxa de devolução anormal, ele pode ser retirado de circulação e revisado antes que as reclamações se multipliquem. Se uma loja registra rupturas de estoque recorrentes em certas categorias, o sistema pode redistribuir o inventário de outros locais ou ajustar os pedidos.

Sinais de Contexto

O contexto fornece nuances essenciais para interpretar o restante dos sinais. O comportamento do cliente muda de acordo com múltiplas variáveis externas: estação, clima, eventos locais, tendências sociais ou a situação econômica. Os sinais de contexto capturam esses fatores e os relacionam aos padrões de compra. Um dia de chuva forte pode desencadear vendas de certos produtos em áreas específicas. Uma conversa viral nas redes sociais pode gerar interesse repentino em algo que não tinha movimento há meses.

Sinais de contexto: compras na loja e navegação em casa; cartão de convite e produto “tendência” sobrepostos.

Esses sinais ajudam a diferenciar entre mudanças estruturais e flutuações temporárias. Eles permitem ajustes estratégicos dinâmicos e o aproveitamento de oportunidades que, de outra forma, passariam despercebidas até que fosse tarde demais.

Do “Mapa de Canais” ao “Mapa de Decisões”

A mudança fundamental proposta pelo ecossistema de sinais afeta a forma como as organizações tomam decisões. Em vez de planejar estratégias por canal, elas são planejadas em torno de quatro tipos de decisões que precisam de informações integradas para funcionar bem.

1. Decisões de Experiência

As decisões de experiência incluem o design da loja, navegação digital, informações sobre o produto ou atendimento ao cliente. Sinais de fricção, intenção e contexto ajudam a identificar quais elementos causam confusão, abandono ou insatisfação.

Em vez de redesenhar toda a experiência, ajustes específicos com impacto real podem ser priorizados.

2. Decisões Comerciais

As decisões comerciais abrangem sortimento, preços, promoções e ativações. Essas decisões melhoram drasticamente quando incorporam sinais de intenção, valor e contexto. Elas também são alimentadas por sinais operacionais. Um mapa de decisões baseado em sinais permite que essas variáveis sejam ajustadas de acordo com comportamentos reais, e não apenas com o histórico de vendas.

Isso é especialmente relevante em categorias com alta rotatividade ou forte concorrência.

3. Decisões Operacionais

Quanto estoque manter, onde localizá-lo, quando repor e como organizar a logística. Essas decisões, tradicionalmente baseadas em histórico e previsões, tornam-se muito mais precisas com sinais em tempo real.

O ecossistema de sinais permite uma mudança da gestão de estoque reativa para a gestão preditiva. Em vez de esperar que ocorram rupturas de estoque, o sistema antecipa a demanda e redistribui recursos proativamente.

4. Decisões de Relacionamento

As decisões de relacionamento beneficiam especialmente a retenção e o valor a longo prazo. O ecossistema permite a identificação de sinais precoces de desengajamento (redução na frequência de compra, aumento de consultas de serviço técnico, menos interação com as comunicações) e a ação antes de perder o cliente definitivamente.

Além disso, ter comunicações mais relevantes, melhor segmentação e um serviço mais contextualizado reforça a percepção de consistência da marca.

Infográfico de mapa de decisões em 4 etapas: dados do cliente, sinais de preço e desconto, ciclo de compra e logística, e alertas para atendimento e engajamento do cliente.

O Que Muda Quando Conectamos Melhor as Informações

Entender o varejo como um ecossistema de sinais requer uma mudança de mentalidade em todos os níveis da organização. Significa aceitar que o valor de uma interação nem sempre se traduz em uma venda imediata, mas sim em uma peça de informação que pode melhorar o desempenho global do negócio.

A boa notícia é que uma transformação completa não é necessária da noite para o dia. Muitas organizações começam conectando duas ou três fontes de sinais, demonstrando valor e construindo capacidades gradualmente. O importante é entender que cada sinal isolado conta pouco, mas cada conexão entre sinais multiplica exponencialmente o valor do sistema. Quanto mais integrado for o ecossistema, mais inteligentes e rápidas serão as decisões.

Essa abordagem prepara as empresas para serem muito mais ágeis em um ambiente onde a mudança é a única constante. Ao integrar os dados e permitir que fluam entre os departamentos, as decisões deixam de ser baseadas em intuição ou em relatórios de vendas passadas. A empresa começa a operar no presente, respondendo aos estímulos reais de seus clientes e otimizando cada recurso disponível. Em última análise, a transição para um modelo baseado em sinais permite que o varejo recupere sua essência original: ouvir o cliente para oferecer exatamente o que ele precisa, no momento e lugar certos.